
AnálisePC · PlayStation 3 · Xbox 360 · XBOX ONE
Entre a beleza e a loucura - Alice: Madness Returns
Sombrio, perturbador e visualmente incrível, Alice: Madness Returns transforma o País das Maravilhas em uma jornada pela mente fodida de Alice. Nesta análise, revisitamos esse clássico de 2011 e tudo o que ainda o torna tão marcante.
Publicado em
"Toda imagem conta uma história. Às vezes não gostamos do final. Às vezes não a compreendemos." - Cheshire Cat
Existem jogos que impressionam pela tecnologia, outros pela jogabilidade e alguns que constroem uma identidade tão forte que parecem simplesmente se recusar a envelhecer.
Alice: Madness Returns pertence a esse último grupo.
Lançado em 2011, o jogo carrega inevitavelmente algumas marcas de sua geração. Mas basta acompanhar os primeiros passos de Alice pelo País das Maravilhas para perceber que existe algo diferente aqui.
Belo, sombrio e frequentemente perturbador, Madness Returns transforma um universo conhecido por sua fantasia em uma representação dos traumas de sua protagonista.
E por trás de uma das direções de arte mais marcantes de sua geração existe um jogo que nem sempre consegue acompanhar a criatividade do próprio mundo.

De volta ao País das Maravilhas
Alice: Madness Returns continua a história iniciada em American McGee's Alice.
Anos após o incêndio que matou sua família, Alice ainda sofre com as consequências psicológicas da tragédia. Depois de deixar o sanatório Rutledge, ela passa a viver em Londres enquanto recebe tratamento do psiquiatra Dr. Angus Bumby.
Mas suas memórias continuam fragmentadas.
Realidade, lembranças e imaginação começam novamente a se misturar, levando Alice de volta ao País das Maravilhas.
Só que Wonderland também não está bem.
O lugar funciona quase como uma extensão da mente da protagonista. Ambientes encantadores podem rapidamente se transformar em cenários grotescos, enquanto criaturas aparentemente inocentes assumem formas dignas de pesadelos.
Quanto mais Alice tenta compreender aquilo que aconteceu com sua família, mais distorcido aquele mundo se torna.

Entre plataformas e lâminas
Apesar da estética ser provavelmente aquilo que primeiro chama atenção, Madness Returns é essencialmente um jogo de ação e aventura que mistura plataforma 3D, exploração, puzzles e elementos de hack and slash.
Alice consegue realizar múltiplos saltos no ar, planar por alguns instantes e encolher para atravessar pequenas passagens ou revelar elementos escondidos pelo cenário.
E a movimentação é uma das partes mais agradáveis do jogo.
Existe uma leveza quase proposital na maneira como Alice atravessa Wonderland. Saltar entre plataformas enquanto borboletas surgem ao seu redor e seu vestido acompanha os movimentos combina perfeitamente com aquele universo surreal.

O combate segue uma lógica relativamente simples.
A clássica Vorpal Blade funciona como uma arma rápida para confrontos próximos, enquanto o Hobby Horse oferece ataques mais lentos e pesados. Outras ferramentas adquiridas durante a aventura aumentam as possibilidades tanto durante os confrontos quanto na resolução de puzzles.
Nos primeiros capítulos, essa combinação funciona muito bem.
Esquivar no momento certo, alternar entre armas e descobrir a melhor maneira de enfrentar cada criatura torna os combates bastante divertidos.

O problema começa a aparecer conforme as horas passam.
Alice: Madness Returns é um jogo consideravelmente longo para aquilo que oferece mecanicamente.
Os cenários mudam, novos inimigos aparecem e algumas ideias são introduzidas, mas a estrutura básica começa a se repetir: atravessamos plataformas, resolvemos pequenos puzzles, encontramos uma arena com inimigos e seguimos adiante.
Não chega a transformar a experiência em algo ruim.
Mas existe constantemente a sensação de que um jogo tão criativo visualmente poderia ter sido igualmente ousado em sua estrutura.
Um País das Maravilhas de pesadelos
É quando falamos de direção de arte que fica difícil não se apaixonar por Alice: Madness Returns.
Wonderland é o verdadeiro protagonista da experiência.
Cada região possui uma identidade extremamente marcante. Ambientes aparentemente encantadores escondem elementos macabros, enquanto lugares completamente grotescos conseguem, de alguma forma, continuar belos.

E essa estética não existe apenas para impressionar.
O mundo acompanha o estado psicológico de Alice.
Quanto mais perturbadoras se tornam suas memórias, mais Wonderland parece abandonar qualquer compromisso com a lógica.
Objetos assumem proporções absurdas, estruturas desafiam a física e criaturas parecem ter saído diretamente de um pesadelo infantil.
Até a própria Alice acompanha essas transformações.
Seus vestidos mudam de acordo com cada região, mantendo a identidade da personagem enquanto incorporam elementos daquele ambiente.

Tecnicamente, obviamente estamos diante de um jogo de 2011.
Algumas texturas, modelos e animações entregam sua idade.
Artisticamente, porém, Madness Returns continua impressionante.
E talvez seja uma das melhores demonstrações da diferença entre qualidade gráfica e direção de arte.
Tecnologia envelhece.
Uma identidade visual bem construída, nem sempre.
Muito além da loucura
Por trás de toda aquela fantasia existe uma história consideravelmente pesada.
Madness Returns utiliza Wonderland para explorar trauma, culpa e principalmente memória.
Alice não consegue confiar completamente naquilo que lembra. Fragmentos de seu passado aparecem durante a aventura e gradualmente começam a reconstruir os acontecimentos da noite que mudou sua vida.
É justamente isso que torna Wonderland tão importante.
Ele não funciona apenas como um mundo fantástico onde a aventura acontece.
É uma manifestação da própria Alice.

Isso também faz com que muitas criaturas, ambientes e situações possam ser interpretados de maneiras diferentes.
O jogo constantemente alterna entre beleza e horror.
Em um momento estamos atravessando cenários extremamente coloridos e quase infantis. Pouco depois encontramos imagens grotescas, ambientes opressivos e elementos claramente desconfortáveis.
E Madness Returns raramente precisa recorrer ao susto tradicional para causar essa sensação.
É o próprio mundo que provoca o desconforto.
Quanto mais bonito Wonderland parece, maior é a impressão de que alguma coisa profundamente errada está escondida por trás daquela beleza.
Uma trilha para acompanhar a insanidade
O trabalho sonoro acompanha perfeitamente essa proposta.
A trilha alterna melodias delicadas com composições inquietantes, ajudando a transformar Wonderland em um lugar que nunca transmite uma sensação completa de segurança.
Mesmo nos ambientes aparentemente tranquilos existe frequentemente alguma coisa estranha acontecendo ao fundo.
Ruídos, vozes, máquinas e elementos da própria trilha ajudam a criar a sensação de que aquele mundo está constantemente prestes a mudar.

Não é necessariamente uma trilha que tenta roubar a atenção do jogador o tempo inteiro.
Ela funciona como parte da atmosfera.
E em um jogo tão dependente de ambientação, isso faz uma enorme diferença.
Como Alice: Madness Returns envelheceu?
Surpreendentemente bem.
Desde que saibamos separar tecnologia de arte.
Visualmente, existem vários elementos que denunciam um título lançado em 2011. Algumas texturas são simples, certas animações parecem rígidas e pequenos detalhes ambientais dificilmente impressionariam tecnicamente hoje.
Mas isso importa muito menos do que poderia parecer.

A força da direção artística faz com que Madness Returns continue visualmente interessante tantos anos depois.
A jogabilidade também permanece funcional e agradável, principalmente nas sequências de plataforma.
Seu maior problema não está exatamente relacionado à idade.
Está na repetição.
É possível perceber relativamente cedo o ciclo seguido por boa parte da aventura. Alguns capítulos poderiam ser menores e determinadas sequências claramente se beneficiariam de um ritmo mais rápido.
Curiosamente, portanto, aquilo que mais incomoda hoje provavelmente não envelheceu.
Já era uma limitação estrutural do próprio jogo.
E talvez seja justamente isso que torne Alice: Madness Returns tão interessante de revisitar: enquanto vários jogos de sua geração dependiam do impacto tecnológico para impressionar, ele apostou em algo muito mais resistente ao tempo.
Personalidade.
Veredito do Texugo
Alice: Madness Returns é um jogo cheio de imperfeições dentro de um mundo extraordinário.
Seu combate poderia evoluir mais. Algumas sequências duram além do necessário e sua estrutura eventualmente se torna previsível.
Mas é difícil encontrar outro jogo exatamente como ele.
Wonderland possui personalidade em praticamente cada cenário, criatura e detalhe. A direção artística transforma limitações técnicas em algo secundário, enquanto a maneira como o jogo utiliza aquele universo para representar a mente de Alice continua fascinante.

Talvez seja justamente por isso que ainda seja lembrado tantos anos depois.
Não porque tenha sido o melhor hack and slash de sua geração.
Nem porque tenha revolucionado os jogos de plataforma.
Mas porque Alice: Madness Returns possui algo que muitos jogos tecnicamente superiores nunca conseguiram encontrar:
identidade.
É belo, estranho, imperfeito e perturbador.
Exatamente como seu País das Maravilhas.
Veredito
Ótimo
Alice: Madness Returns transforma o País das Maravilhas em uma jornada bela, sombria e perturbadora. Apesar da estrutura repetitiva e de um combate que pouco evolui, sua extraordinária direção de arte, atmosfera e identidade fazem dele uma experiência única que continua impressionante mesmo tantos anos depois.
Pontos positivos
- Direção de arte excepcional
- Atmosfera marcante
- Ótima identidade visual
- Movimentação agradável
- Variedade estética entre os capítulos
Pontos negativos
- Estrutura repetitiva
- Campanha mais longa do que suas mecânicas conseguem sustentar
- Combate poderia apresentar maior evolução ao longo da aventura
- #Alice:MadnessReturns
- #AmericanMcGee
- #ElectronicArts
- #SpicyHorse
- #Plataforma3D
- #HackandSlash
- #TerrorPsicológico
- #PC
- #PlayStation3
- #Xbox360
Comentários
Carregando comentários…
