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O paraíso que nunca existiu - BioShock Infinite
Uma cidade acima das nuvens, uma garota presa em uma torre e uma dívida a ser paga. Revisitamos BioShock Infinite e a inesquecível jornada de Booker e Elizabeth por Columbia.
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“A mente do indivíduo lutará desesperadamente para criar memórias onde elas não existem.” - R. Lutece
Uma cidade flutuando acima das nuvens. Prédios coloridos, jardins impecáveis, música pelas ruas e uma população que parece viver em uma espécie de paraíso particular. Poucos jogos causam uma primeira impressão tão forte quanto BioShock Infinite.
Mas Columbia é construída justamente em torno de aparências.
Quanto mais exploramos suas ruas, mais aquele cartão-postal começa a revelar algo profundamente errado. Fanatismo religioso, nacionalismo extremo, segregação e violência convivem por trás da imagem perfeita criada por seu fundador.
E no centro de tudo estão um homem tentando pagar uma dívida e uma garota que passou a vida inteira presa em uma torre.
Lançado em 2013, BioShock Infinite abandonou as profundezas de Rapture para levar a série aos céus. A mudança poderia ter apagado boa parte da identidade de BioShock, mas acabou fazendo exatamente o contrário: Columbia é tão importante para Infinite quanto a cidade submarina foi para os jogos anteriores.
Bem-vindo a Columbia
Estamos em 1912.
Booker DeWitt é um homem atormentado pelo próprio passado e afundado em dívidas. É então que recebe uma proposta aparentemente simples:
“Traga-nos a garota e quite a dívida.”
Sua missão o leva até um misterioso farol na costa do Maine. Só que, ao contrário do que aconteceu no primeiro BioShock, desta vez o farol não conduz o protagonista às profundezas do oceano.
Ele o lança aos céus.
Booker chega a Columbia, uma cidade flutuante fundada por Zachary Hale Comstock, líder religioso tratado por seus habitantes como um verdadeiro profeta.
Nos primeiros minutos, o jogo quase nos permite acreditar naquele lugar.
Columbia é vibrante. Pessoas conversam pelas ruas, crianças brincam, casais aproveitam os jardins e uma enorme celebração toma conta da cidade. Tudo parece deliberadamente diferente da decadência encontrada em Rapture.
Até que a fachada começa a cair.
Por trás daquele aparente paraíso existe uma sociedade construída sobre racismo, segregação, culto à personalidade e uma interpretação fanática da história americana.
E Booker rapidamente descobre que sua chegada não passou despercebida.
Uma marca com as letras AD em sua mão o identifica como o chamado “Falso Pastor”, figura que, segundo as profecias de Comstock, viria para destruir Columbia.
A missão, porém, permanece a mesma.
Encontrar Elizabeth.

Armas, Vigores e Skylines
Apesar de toda a importância dada à narrativa, BioShock Infinite continua sendo, antes de qualquer coisa, um FPS.
Booker utiliza diferentes armas de fogo durante a campanha, podendo carregar pistolas, escopetas, rifles, armas automáticas e equipamentos mais pesados.
Mas são os Vigores que dão personalidade ao combate.
Funcionando como uma versão dos Plasmids dos jogos anteriores, eles concedem habilidades especiais que podem ser combinadas com as armas convencionais. É possível lançar inimigos ao ar, eletrocutá-los, colocar armadilhas pelo cenário ou até fazê-los temporariamente lutar ao seu lado.
Essa combinação permite brincar bastante com os confrontos.
Um inimigo pode ser lançado ao ar e atingido enquanto está vulnerável. Uma poça d'água pode se transformar em uma armadilha elétrica. Grupos inteiros podem ser controlados antes de Booker terminar o serviço com uma arma de fogo.
E então entram as Skylines.
Os trilhos espalhados por Columbia permitem que Booker atravesse rapidamente determinadas arenas utilizando seu Sky-Hook. Durante os combates, eles transformam algumas áreas em verdadeiros playgrounds verticais.
Você pode atacar, subir para uma Skyline, circular pelo cenário, saltar atrás de outro inimigo e rapidamente mudar novamente de posição.
Quando todos esses sistemas trabalham juntos, Infinite é extremamente divertido.
Existe, porém, uma simplificação perceptível quando comparamos Infinite aos primeiros BioShock.
A exploração é mais linear, o gerenciamento de recursos perdeu importância e várias situações são claramente construídas como arenas de combate. Até a limitação de Booker a duas armas simultâneas aproxima o jogo dos shooters tradicionais daquela geração.
Isso não significa necessariamente que o combate seja pior.
Ele apenas representa uma direção diferente.
Infinite troca parte da liberdade e do ritmo mais metódico de seus antecessores por velocidade, verticalidade e espetáculo.
Uma cidade acima das nuvens
Se Rapture representava os restos de uma utopia destruída, Columbia permite que presenciemos uma utopia enquanto sua fachada ainda está de pé.
E talvez esteja aí uma das maiores qualidades de BioShock Infinite.
Columbia é absolutamente linda.
Sua arquitetura mistura elementos do início do século XX com uma tecnologia impossível para aquela época. Prédios gigantescos flutuam entre as nuvens enquanto dirigíveis atravessam o céu e enormes estruturas se movimentam ao redor da cidade.
O contraste com Rapture não poderia ser maior.
Enquanto o primeiro BioShock utiliza corredores escuros, estruturas enferrujadas e o oceano pressionando constantemente as janelas, Infinite apresenta céu azul, luz do sol e espaços aparentemente acolhedores.
Mas os dois lugares compartilham uma característica fundamental:
ambos são utopias construídas sobre ideias levadas ao extremo.
Columbia transforma figuras históricas americanas em praticamente entidades religiosas. George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson aparecem representados quase como santos, enquanto Comstock constrói sua própria imagem como profeta escolhido para conduzir aquele povo.
Propagandas, cartazes, museus e até atrações turísticas são utilizados para contar a história que Columbia deseja contar sobre si mesma.
É uma cidade que constantemente tenta convencer seus habitantes, e o próprio jogador, de sua grandeza.

É por isso que simplesmente caminhar por Columbia é uma das melhores partes do jogo.
Existem histórias sendo contadas nas paredes, nas conversas dos moradores e até na arquitetura.
E quanto mais conhecemos aquele lugar, mais perturbador se torna o contraste entre sua beleza e aquilo que representa.
Booker e Elizabeth
Então encontramos Elizabeth.
E é aqui que BioShock Infinite ganha seu coração.
Elizabeth passou praticamente toda sua vida presa em uma torre, observando o mundo através de livros enquanto era constantemente vigiada por Songbird.
Quando Booker finalmente consegue libertá-la, encontramos alguém completamente diferente do que talvez esperássemos daquela situação.
Ela é curiosa, expressiva e fascinada pelo mundo.
Nos primeiros momentos em Columbia, Elizabeth simplesmente quer viver.
Ela observa vitrines, conversa com pessoas, dança, corre pelo cenário e reage ao ambiente ao seu redor. Pequenas animações e diálogos fazem com que ela pareça realmente interessada naquele mundo que passou tantos anos apenas imaginando.
Mais importante: ela raramente parece um peso para o jogador.
Durante os confrontos, Elizabeth procura munição, dinheiro e itens de recuperação para Booker. Conforme suas habilidades passam a fazer parte do gameplay, ela também consegue alterar determinados elementos das arenas através das chamadas Tears.
Isso faz com que a personagem participe efetivamente da experiência sem transformar o jogo em uma enorme missão de escolta.
Mas é fora dos combates que a relação funciona melhor.
Booker e Elizabeth começam a jornada querendo coisas diferentes. A confiança entre os dois precisa ser construída e, conforme os acontecimentos de Columbia se tornam mais violentos, ambos passam por mudanças importantes.
Booker já conhecia aquele tipo de mundo.
Elizabeth não.
E acompanhar a maneira como aquela garota extremamente curiosa começa a compreender a violência e a crueldade existentes fora de sua torre é uma das partes mais marcantes da história.
Há sempre um farol...
Falar profundamente sobre a narrativa de BioShock Infinite sem revelar seus segredos é complicado.
O jogo começa com uma premissa extremamente simples.
Encontre Elizabeth. Entregue a garota. Quite a dívida.
Mas rapidamente percebemos que praticamente nada é tão simples quanto parece.
Elizabeth possui a capacidade de abrir Tears, fendas que permitem enxergar e, eventualmente, interagir com outras possibilidades da realidade.
A partir disso, Infinite começa a brincar com conceitos de universos paralelos, acontecimentos que podem ou não ocorrer e diferentes versões das mesmas pessoas.
E uma das ideias mais interessantes surge justamente da relação entre constantes e variáveis.
Algumas coisas mudam.
Outras parecem destinadas a acontecer independentemente da realidade.

É também aqui que aquela frase apresentada antes mesmo do início da aventura começa a fazer sentido:
“A mente do indivíduo lutará desesperadamente para criar memórias onde elas não existem.”
Infinite espalha pistas durante praticamente toda a campanha.
Conversas aparentemente estranhas, acontecimentos que parecem contraditórios e até pequenos detalhes visuais ganham outro significado quando conhecemos toda a história.
É o tipo de jogo em que terminar a campanha faz você querer voltar ao começo apenas para perceber quantas respostas estavam diante dos seus olhos.
E justamente por isso não entrarei mais profundamente nessa parte aqui.
Discutir quem realmente são Booker, Elizabeth e Comstock exige revelar aquilo que considero uma das melhores experiências do jogo.
Os sons de uma Columbia impossível
A música desempenha um papel curioso em BioShock Infinite.
Estamos em 1912, mas algumas melodias encontradas pela cidade simplesmente não pertencem àquela época.
O jogador atento pode reconhecer versões antigas de músicas que só seriam compostas muitas décadas depois.
E isso não é apenas uma brincadeira dos desenvolvedores.
Existe uma explicação dentro do próprio universo para essas músicas estarem em Columbia.
É mais um exemplo de como Infinite utiliza pequenos detalhes ambientais para reforçar sua narrativa.
Além disso, a trilha acompanha perfeitamente as mudanças da cidade.
A Columbia acolhedora dos primeiros minutos possui músicas leves e ambientes cheios de vida. Conforme a situação se deteriora, o som acompanha essa transformação e ajuda a desmontar aquela sensação inicial de paraíso.
Como BioShock Infinite envelheceu?
Muito bem visualmente.
Mais uma vez, direção de arte faz uma diferença enorme.
BioShock Infinite obviamente não possui a mesma complexidade gráfica de um jogo moderno, mas Columbia continua sendo um lugar impressionante graças ao uso de cores, arquitetura e iluminação.
Elizabeth também continua funcionando surpreendentemente bem.
Suas animações e principalmente a maneira como reage aos ambientes ainda conseguem transmitir personalidade, mesmo que hoje seja mais fácil perceber alguns comportamentos repetidos de sua inteligência artificial.
É no gameplay que a idade aparece um pouco mais.
A estrutura de FPS do início da década de 2010 fica evidente em diversos momentos. Arenas de combate, ondas de inimigos e a limitação de duas armas são características muito associadas àquela geração.
E comparado aos primeiros BioShock, algumas possibilidades realmente fazem falta.
Por outro lado, as Skylines ainda dão bastante personalidade aos confrontos e os Vigores continuam permitindo combinações extremamente divertidas.
Curiosamente, talvez seja a narrativa que tenha envelhecido de maneira mais interessante.
Conhecer o final muda completamente a maneira como enxergamos vários acontecimentos anteriores.
Infinite é um daqueles raros jogos em que uma segunda campanha não serve apenas para jogar novamente.
Serve para entender melhor a primeira.
Veredito do Texugo
BioShock Infinite começa prometendo uma missão simples e termina discutindo identidade, memória, escolhas e as consequências de tentar escapar do próprio passado.
Nem tudo funciona perfeitamente.
A estrutura é mais linear que a de seus antecessores, algumas batalhas se prolongam além do necessário e parte da complexidade sistêmica dos primeiros jogos foi sacrificada para transformar Infinite em uma experiência mais próxima de um FPS tradicional.
Mas poucas dessas limitações conseguem apagar aquilo que o jogo faz de melhor.
Columbia é uma cidade inesquecível.
Elizabeth continua sendo uma excelente companheira.
E a relação entre os dois personagens sustenta uma história que constantemente desafia aquilo que acreditávamos compreender.

Mais de uma década depois, talvez algumas engrenagens de BioShock Infinite estejam mais aparentes.
Mas subir aos céus pela primeira vez, observar Columbia surgindo entre as nuvens e perceber lentamente que aquele paraíso nunca existiu continua sendo uma experiência especial.
Porque em BioShock há sempre alguma coisa esperando do outro lado.
Há sempre um farol.
Há sempre um homem.
Há sempre uma cidade.
Veredito
Excelente
BioShock Infinite entrega uma jornada inesquecível por Columbia, marcada por uma direção de arte excepcional, pela relação entre Booker e Elizabeth e por uma narrativa cheia de mistérios. Apesar da linearidade e de alguns combates repetitivos, continua sendo uma das experiências mais marcantes de sua geração.
Pontos positivos
- Columbia e sua extraordinária direção de arte
- Elizabeth como companheira de luta e personagem
- Narrativa cheia de detalhes e pistas
- História imersiva e cheio de reviravoltas
- Ambientação
- Trilha sonora.
Pontos negativos
- Estrutura mais linear que os jogos anteriores
- Alguns confrontos repetitivos
- Diferentes dos jogos anteriores, não temos finais alternativos
- Escolhas tem pouco impacto na gameplay
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