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Quanto custa ser humano? - NieR: Automata
Em uma Terra abandonada pela humanidade, androides e máquinas travam uma guerra aparentemente interminável. Acompanhamos 2B e 9S em uma jornada sobre consciência, propósito e aquilo que realmente significa estar vivo.
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"Tudo o que vive foi feito para acabar." - 2B
NieR: Automata começa falando sobre a morte.
Curiosamente, passa boa parte de sua jornada tentando descobrir o que significa estar vivo.
Em um futuro distante, a humanidade foi expulsa da Terra após uma invasão alienígena. Do outro lado do conflito, máquinas dominam aquilo que restou do planeta enquanto androides construídos pelos humanos travam uma guerra aparentemente interminável para recuperá-lo.
É nesse cenário que conhecemos 2B.
Uma androide criada para lutar. Fria, disciplinada e programada para cumprir ordens sem questioná-las.
Ou pelo menos é isso que ela tenta demonstrar.
Ao seu lado está 9S, um androide Scanner muito mais curioso, comunicativo e disposto a questionar aquilo que encontra.
E conforme os dois começam a observar seus supostos inimigos imitando comportamentos humanos formando famílias, criando religiões, demonstrando medo e tentando compreender a própria existência, uma pergunta passa lentamente a dominar toda a experiência:
se uma máquina consegue sentir, sofrer e procurar um propósito para sua existência, o que exatamente a diferencia de nós?

Glória à humanidade
Estamos milhares de anos no futuro.
Após alienígenas invadirem a Terra utilizando um exército de máquinas, os humanos sobreviventes teriam fugido para a Lua.
Para recuperar seu planeta, a humanidade criou a organização YoRHa.
Seus androides são enviados constantemente à superfície para enfrentar as máquinas e preparar o retorno da humanidade.
Glory to Mankind.
É nesse contexto que as unidades 2B e 9S recebem suas missões.
2B é uma unidade de combate extremamente eficiente, enquanto 9S é especializado em reconhecimento, coleta de informações e invasão de sistemas.
A dinâmica entre os dois rapidamente se torna uma das partes mais importantes da história.

2B tenta manter distância emocional.
9S faz exatamente o contrário.
Ele conversa, pergunta, demonstra curiosidade e constantemente tenta compreender melhor sua companheira.
E existe uma razão para 2B insistir tanto que sentimentos são proibidos.
Mas descobrir qual é essa razão faz parte da jornada.
Espadas, Pods e máquinas
É difícil falar sobre o combate de NieR: Automata sem mencionar a PlatinumGames.
E isso é uma coisa muito boa.
O jogo mistura elementos de ação RPG com um sistema de combate extremamente rápido e fluido.
2B consegue equipar diferentes combinações de armas, alternando entre ataques leves e pesados enquanto esquiva, contra-ataca e utiliza seu Pod para ataques à distância.

E visualmente é maravilhoso assistir 2B lutando.
Os movimentos são extremamente elegantes. Espadas flutuam ao redor da personagem, golpes se conectam naturalmente e a animação transforma até confrontos relativamente simples em algo estiloso.
A esquiva merece destaque especial.
Quando realizada no momento correto, 2B literalmente desaparece por alguns instantes antes de reaparecer e contra-atacar.
É simples de executar, extremamente satisfatório e combina perfeitamente com a personagem.
E sim.
O design da 2B certamente contribuiu para a popularidade do jogo por motivos que absolutamente ninguém na internet jamais percebeu.

Mas reduzir a personagem à sua aparência seria ignorar justamente aquilo que torna seu design interessante.
A venda nos olhos, o vestido preto extremamente elegante, as luvas e até a maneira como ela se movimenta ajudam a transmitir algo quase contraditório.
2B parece delicada.
E então destrói uma máquina gigantesca com uma espada maior que ela.
Essa mistura de elegância e brutalidade tornou sua silhueta imediatamente reconhecível e fez dela uma das personagens mais icônicas de sua geração.
Um RPG que se recusa a permanecer um RPG
Uma das características mais interessantes de NieR: Automata é sua completa falta de respeito por gêneros.
Em determinado momento estamos jogando um action RPG tradicional.
Segundos depois, a câmera muda.
O jogo vira plataforma 2D.
Depois, bullet hell.
Depois, shooter.
Depois, hackeamos uma máquina e estamos dentro de um minigame completamente diferente.
E estranhamente tudo parece pertencer ao mesmo jogo.
Automata constantemente utiliza essas mudanças para quebrar o ritmo e impedir que seus confrontos sejam apenas sequências de golpes contra máquinas.
Até elementos normalmente externos ao universo do jogo são incorporados à narrativa.
Menus, sistema operacional, chips e interface existem dentro daquele mundo.
Quer remover partes da HUD?
Retire o chip correspondente.
Quer melhorar determinado atributo?
Instale outro chip.
Quer descobrir o que acontece se remover o chip responsável pelo sistema operacional da 2B?
Bom...
Você pode.
E NieR certamente vai lembrar que você fez isso.
Quando máquinas começam a viver
É aqui que NieR: Automata realmente começa a mostrar aquilo que pretende discutir.
Inicialmente, as máquinas parecem simplesmente inimigos.
Pequenos robôs repetindo frases enquanto atacam qualquer androide que encontram.
Mas então começam a surgir comportamentos estranhos.
Máquinas tentando criar famílias.
Máquinas cuidando de crianças.
Máquinas formando comunidades.
Máquinas criando religiões.
Máquinas sentindo medo.

E surge Pascal.
Uma máquina pacifista que lidera uma comunidade que decidiu abandonar o conflito.
Através dela, o jogo começa a questionar a própria justificativa daquela guerra.
Se máquinas conseguem desenvolver cultura, empatia, medo e relações sociais...
elas continuam sendo apenas máquinas?
E existe uma ironia enorme nisso.
Enquanto as máquinas tentam desesperadamente aprender como serem humanas, os androides passam boa parte do jogo tentando reprimir exatamente aquilo que os torna parecidos conosco.
Sentimentos.
2B
E é aqui que precisamos falar dela.
Não apenas porque colocar uma seção chamada “2B” certamente aumentará o tempo médio de permanência dos leitores por razões completamente científicas.

Durante boa parte da história, 2B parece emocionalmente distante.
Ela fala pouco.
Segue ordens.
Evita conversas desnecessárias.
E constantemente lembra 9S de que androides não devem demonstrar sentimentos.
Mas pequenas rachaduras aparecem nessa postura.
A maneira como ela reage a 9S frequentemente contradiz aquilo que diz.
E quanto mais avançamos, mais percebemos que a frieza da personagem não necessariamente representa ausência de emoções.
Talvez represente justamente o contrário.
2B sente demais.
E precisa desesperadamente fingir que não sente.
É justamente por isso que aquela primeira frase do jogo ganha tanto significado posteriormente.
“Tudo o que vive foi feito para acabar.”
Não é apenas uma reflexão filosófica qualquer.
Quando compreendemos completamente a relação entre 2B e 9S, aquelas palavras passam a carregar um peso completamente diferente.

E é aí que NieR: Automata demonstra uma de suas maiores qualidades.
Ele não utiliza filosofia apenas para parecer inteligente.
Utiliza aquelas ideias para explicar seus personagens.
Uma história que não termina quando os créditos aparecem
Terminar NieR: Automata não significa terminar NieR: Automata.
E isso precisa ficar muito claro para qualquer pessoa começando o jogo.
Depois dos primeiros créditos, existe muito mais história.
A segunda rota revisita acontecimentos através de outra perspectiva e revela informações que simplesmente não estavam disponíveis anteriormente.
E posteriormente...
O jogo continua.
De verdade.
Por isso, abandonar Automata depois do primeiro final significa experimentar apenas uma parte da obra.
A estrutura pode inicialmente parecer repetitiva, principalmente durante determinados trechos da segunda rota.
Mas existe um propósito.
O jogo quer que vejamos os mesmos acontecimentos sabendo coisas diferentes.
Porque mudar aquilo que sabemos muda completamente aquilo que estamos vendo.
E eventualmente a história chega aos finais C, D e E.
É aqui que qualquer discussão mais profunda exigiria spoilers.
E, assim como fizemos com BioShock Infinite, eu deixaria uma seção separada posteriormente para discutir isso.
Porque o Ending E merece uma conversa própria.
O som do fim do mundo
Se existe alguma coisa em NieR: Automata que rivaliza com sua narrativa, é sua trilha sonora.
Ela é extraordinária.
City Ruins, Amusement Park, Pascal, A Beautiful Song, Weight of the World...
As músicas não simplesmente acompanham os cenários.
Elas praticamente fazem parte deles.

Explorar as ruínas enquanto vocais melancólicos acompanham 2B cria uma sensação difícil de separar da experiência.
Há algo profundamente triste naquele mundo.
A humanidade não está mais ali.
Prédios estão sendo lentamente consumidos pela natureza.
Máquinas repetem comportamentos de pessoas que nunca conheceram.
E androides continuam lutando por seres humanos que jamais viram.
A trilha entende perfeitamente essa melancolia.
E quando Weight of the World finalmente encontra seu verdadeiro significado...
É difícil permanecer indiferente.
Como NieR: Automata envelheceu?
Muito bem onde realmente importa.
Tecnicamente, nunca foi um jogo particularmente impressionante.
Mesmo em 2017 existiam ambientes relativamente simples, algumas texturas pouco detalhadas e cenários bastante vazios.

Hoje isso fica ainda mais evidente.
Mas, existe uma diferença importante entre tecnologia e identidade artística.
A melancolia das cidades abandonadas, os designs das máquinas e principalmente a estética dos androides continuam funcionando perfeitamente.
O combate também permanece excelente.
Rápido, responsivo e extremamente estiloso.
Algumas missões secundárias entregam sua idade de maneira mais evidente, principalmente aquelas construídas em torno de buscar itens ou atravessar repetidamente áreas conhecidas.
Mas são limitações pequenas diante daquilo que o jogo continua fazendo bem.
Porque aquilo que realmente sustenta NieR: Automata nunca foi sua tecnologia.
Foram suas ideias.
Veredito do Texugo
NieR: Automata é um jogo sobre máquinas tentando compreender humanidade enquanto androides tentam fingir que não possuem nenhuma.
É um action RPG excelente.
É um bullet hell.
É um jogo de plataforma.
É um shooter.
Às vezes é praticamente uma aula de filosofia acompanhada por uma androide extremamente atraente destruindo robôs com uma espada gigantesca.
E de alguma maneira...
Tudo funciona.
Existem imperfeições. Algumas missões secundárias poderiam ser melhores, a segunda rota exige certa paciência e tecnicamente o jogo nunca foi espetacular.
Mas poucas experiências utilizam tão bem gameplay, narrativa, música e até a própria interface para contar uma história.
E talvez seja justamente essa a maior conquista de NieR: Automata.
Depois de dezenas de horas observando máquinas tentando descobrir o significado da vida, o jogo acaba fazendo a mesma pergunta para quem está segurando o controle.
O que realmente significa estar vivo?
Talvez não exista uma resposta.
Mas 2B, 9S e A2 tornam a procura por ela inesquecível.
Veredito
Excelente
NieR: Automata mistura ação, filosofia e uma narrativa extraordinária em uma jornada sobre consciência, propósito e humanidade. Com combate excelente, trilha sonora inesquecível e personagens marcantes como 2B, 9S e A2, suas limitações técnicas pouco importam diante de uma experiência que permanece única.
Pontos positivos
- Narrativa excepcional
- Combate extremamente fluido
- Trilha sonora memorável
- Mistura criativa de gêneros
- Excelente integração entre gameplay e história
Pontos negativos
- Algumas missões secundárias simples
- Segunda rota pode parecer repetitiva inicialmente
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